Gastroenterite é a inflamação do estômago e do intestino que aparece com diarreia, vômito, cólica e às vezes febre, quase sempre causada por vírus e, com menos frequência, por bactéria ou alimento contaminado. A maioria dos casos em adultos dura de um a três dias e resolve sozinha. O que a alimentação faz nesse período é evitar a desidratação, que é o único risco real na maior parte dos casos, e encurtar a recuperação.
A orientação mudou nos últimos anos, e vale dizer isso logo. A antiga dieta branca, de água de arroz, torrada e chá por dias, foi abandonada: o intestino se recupera mais rápido quando recebe comida cedo, e a restrição prolongada deixa a pessoa fraca sem encurtar a diarreia. O que continua valendo é a hidratação como prioridade absoluta e a introdução gradual, do mais fácil de digerir para o normal.
O guia abaixo está dividido por fase, porque a resposta para o que comer muda conforme as horas passam. No fim, os sinais que indicam que o caso saiu do que se resolve em casa.
Primeiras horas: repor líquido antes de pensar em comida
Enquanto houver vômito frequente, a comida espera. O objetivo das primeiras seis a doze horas é devolver ao corpo a água e o sal que estão saindo. O soro de reidratação oral, aquele de farmácia em sachê, é a melhor opção porque tem a proporção de sal e açúcar que o intestino absorve mesmo inflamado; água pura em grande quantidade não repõe o sal, e isotônico de academia tem açúcar demais e sódio de menos.
A técnica importa tanto quanto o líquido: goles pequenos a cada poucos minutos, em vez de um copo de uma vez, que o estômago irritado devolve. Uma referência prática é um gole a cada dois ou três minutos, somando de 200 a 250 ml a cada hora, e mais um copo depois de cada episódio de diarreia. Líquido gelado costuma ser melhor tolerado que morno.
| Líquido | Como usar |
|---|---|
| Soro de reidratação oral de farmácia | A opção correta. Preparar com a quantidade exata de água indicada e consumir em até 24 horas. |
| Soro caseiro | Só na falta do de farmácia: um litro de água filtrada ou fervida, uma colher de chá rasa de sal e duas colheres de sopa de açúcar. Errar a medida é fácil, e o erro tem consequência. |
| Água de coco | Boa companhia, não substituta: tem potássio, mas pouco sódio. Alternar com o soro. |
| Chá de camomila ou erva-doce morno, sem açúcar | Tolerado pela maioria e útil contra a náusea. Não hidrata melhor que água, só é mais fácil de aceitar. |
| Refrigerante, suco de caixinha, bebida energética | Evitar. O açúcar concentrado puxa água para o intestino e piora a diarreia; o gás piora a náusea. |
Primeiro e segundo dia: os alimentos que o intestino aceita
Assim que o vômito espaça e aparece alguma vontade de comer, coma. Não é preciso esperar a diarreia parar. Os alimentos desta fase têm três características: pouca gordura, pouca fibra insolúvel e nenhum açúcar concentrado, porque gordura e fibra aceleram o trânsito e o açúcar puxa água. Porções pequenas, de quatro a seis vezes por dia, funcionam melhor que três refeições grandes.
| Alimento | Por que funciona |
|---|---|
| Arroz branco bem cozido, batata ou mandioca cozidas sem casca | Amido fácil de digerir que também ajuda a dar consistência às fezes. |
| Frango ou peixe cozidos ou grelhados, sem pele e sem óleo | Proteína magra para a recuperação, sem a gordura que acelera o intestino. |
| Banana prata madura, maçã cozida ou raspada, goiaba sem semente | Fruta com pectina, fibra solúvel que absorve água no intestino, e potássio, que a diarreia leva embora. |
| Cenoura e chuchu cozidos | Legumes macios, de fibra suave, que passam bem e trazem algum mineral. |
| Torrada simples, biscoito de água e sal, pão francês sem miolo | Carboidrato seco e neutro que segura o estômago entre uma refeição e outra. |
| Caldo de legumes com frango desfiado | Junta hidratação, sal e proteína numa preparação só. Coar os legumes nas primeiras horas, se a diarreia estiver intensa. |
| Ovo cozido ou poché | Bem tolerado pela maioria a partir do segundo dia; frito, não. |
O que evitar até a diarreia parar
A lista de proibições é curta e tem lógica. Cada item abaixo piora a diarreia ou a náusea por um mecanismo conhecido, e volta ao cardápio assim que as fezes se formarem.
| Evitar | Motivo |
|---|---|
| Leite e derivados, exceto iogurte natural | A inflamação reduz temporariamente a enzima que digere a lactose; o leite volta a ser tolerado dias depois do fim da diarreia. |
| Frituras, embutidos, molhos cremosos | Gordura acelera o trânsito intestinal e demora a esvaziar o estômago, o que alimenta a náusea. |
| Doces, mel, suco de fruta, refrigerante | Açúcar concentrado puxa água para dentro do intestino: é diarreia garantida enquanto a mucosa está inflamada. |
| Folhas cruas, verduras fibrosas, cereais integrais, sementes | Fibra insolúvel raspa uma mucosa que já está irritada. Ela volta na fase de retomada. |
| Café, álcool, bebida com gás | Café e álcool estimulam o intestino e desidratam; o gás distende um estômago que já está sensível. |
| Adoçantes com sorbitol, xilitol ou maltitol | Presentes em bala, chiclete e produtos diet, têm efeito laxante por conta própria. |
Terceiro dia em diante: a volta ao normal
Quando as fezes começam a ganhar forma, a alimentação volta em dois ou três dias, na ordem inversa da restrição: primeiro os legumes cozidos e as frutas variadas, depois o feijão em pequena quantidade, o pão e o arroz integrais, e por último o leite e as frituras ocasionais. Se um alimento reintroduzido causar piora, é só recuar um passo por um dia.
O iogurte natural entra cedo nessa fase, porque as bactérias dele ajudam a recompor a flora que a gastroenterite desorganiza. Probióticos em cápsula têm evidência de encurtar a diarreia em cerca de um dia, principalmente em crianças; em adultos o efeito é menor, e o iogurte cumpre papel parecido a custo menor.
É comum sentir o apetite reduzido e alguma fraqueza por até uma semana. Nessa fase, o mais importante é comer proteína em toda refeição e manter a hidratação um pouco acima do habitual, porque o corpo ainda está repondo o que perdeu. Não é hora de dieta para emagrecer, mesmo que a balança tenha caído: o que saiu foi água.
Sinais de que o caso não se resolve em casa
A maioria das gastroenterites melhora em 72 horas só com hidratação e comida leve. Alguns sinais, porém, indicam desidratação importante ou infecção que precisa de avaliação médica, e nesses casos a alimentação deixa de ser o assunto principal.
| Sinal | O que indica |
|---|---|
| Sangue ou muco nas fezes | Infecção bacteriana ou outra causa que precisa de exame e, às vezes, antibiótico. |
| Febre acima de 38,5 graus que não cede | Sugere causa bacteriana ou quadro além da virose comum. |
| Vômito que impede qualquer líquido por mais de seis a oito horas | Sem conseguir beber, a desidratação é questão de tempo; pode ser preciso soro na veia. |
| Urina escura e rara, boca muito seca, tontura ao levantar | Desidratação já instalada, que o soro oral em casa não está conseguindo corrigir. |
| Diarreia por mais de cinco a sete dias | Foge do curso esperado de uma gastroenterite viral e pede investigação. |
| Sonolência, confusão ou prostração, sobretudo em idosos e crianças pequenas | Sinal de gravidade em quem desidrata mais rápido; não esperar para procurar atendimento. |