Gastroenterite aguda

O que comer na gastroenterite, hora a hora, até voltar ao normal

Soro primeiro, comida cedo e sem a "dieta branca" de antigamente: o que muda nas primeiras horas, nos dois dias seguintes e na volta.

Juliana Borges, nutricionista CRN1-18734atualizado em

Tigela de caldo claro com frango desfiado e cenoura, ao lado de banana e torradas, sobre linho claro

Gastroenterite é a inflamação do estômago e do intestino que aparece com diarreia, vômito, cólica e às vezes febre, quase sempre causada por vírus e, com menos frequência, por bactéria ou alimento contaminado. A maioria dos casos em adultos dura de um a três dias e resolve sozinha. O que a alimentação faz nesse período é evitar a desidratação, que é o único risco real na maior parte dos casos, e encurtar a recuperação.

A orientação mudou nos últimos anos, e vale dizer isso logo. A antiga dieta branca, de água de arroz, torrada e chá por dias, foi abandonada: o intestino se recupera mais rápido quando recebe comida cedo, e a restrição prolongada deixa a pessoa fraca sem encurtar a diarreia. O que continua valendo é a hidratação como prioridade absoluta e a introdução gradual, do mais fácil de digerir para o normal.

O guia abaixo está dividido por fase, porque a resposta para o que comer muda conforme as horas passam. No fim, os sinais que indicam que o caso saiu do que se resolve em casa.

Primeiras horas: repor líquido antes de pensar em comida

Enquanto houver vômito frequente, a comida espera. O objetivo das primeiras seis a doze horas é devolver ao corpo a água e o sal que estão saindo. O soro de reidratação oral, aquele de farmácia em sachê, é a melhor opção porque tem a proporção de sal e açúcar que o intestino absorve mesmo inflamado; água pura em grande quantidade não repõe o sal, e isotônico de academia tem açúcar demais e sódio de menos.

A técnica importa tanto quanto o líquido: goles pequenos a cada poucos minutos, em vez de um copo de uma vez, que o estômago irritado devolve. Uma referência prática é um gole a cada dois ou três minutos, somando de 200 a 250 ml a cada hora, e mais um copo depois de cada episódio de diarreia. Líquido gelado costuma ser melhor tolerado que morno.

O que beber nas primeiras horas, do melhor ao pior.
Líquido Como usar
Soro de reidratação oral de farmáciaA opção correta. Preparar com a quantidade exata de água indicada e consumir em até 24 horas.
Soro caseiroSó na falta do de farmácia: um litro de água filtrada ou fervida, uma colher de chá rasa de sal e duas colheres de sopa de açúcar. Errar a medida é fácil, e o erro tem consequência.
Água de cocoBoa companhia, não substituta: tem potássio, mas pouco sódio. Alternar com o soro.
Chá de camomila ou erva-doce morno, sem açúcarTolerado pela maioria e útil contra a náusea. Não hidrata melhor que água, só é mais fácil de aceitar.
Refrigerante, suco de caixinha, bebida energéticaEvitar. O açúcar concentrado puxa água para o intestino e piora a diarreia; o gás piora a náusea.

Primeiro e segundo dia: os alimentos que o intestino aceita

Assim que o vômito espaça e aparece alguma vontade de comer, coma. Não é preciso esperar a diarreia parar. Os alimentos desta fase têm três características: pouca gordura, pouca fibra insolúvel e nenhum açúcar concentrado, porque gordura e fibra aceleram o trânsito e o açúcar puxa água. Porções pequenas, de quatro a seis vezes por dia, funcionam melhor que três refeições grandes.

Alimentos bem tolerados nas primeiras 48 horas, e por quê.
Alimento Por que funciona
Arroz branco bem cozido, batata ou mandioca cozidas sem cascaAmido fácil de digerir que também ajuda a dar consistência às fezes.
Frango ou peixe cozidos ou grelhados, sem pele e sem óleoProteína magra para a recuperação, sem a gordura que acelera o intestino.
Banana prata madura, maçã cozida ou raspada, goiaba sem sementeFruta com pectina, fibra solúvel que absorve água no intestino, e potássio, que a diarreia leva embora.
Cenoura e chuchu cozidosLegumes macios, de fibra suave, que passam bem e trazem algum mineral.
Torrada simples, biscoito de água e sal, pão francês sem mioloCarboidrato seco e neutro que segura o estômago entre uma refeição e outra.
Caldo de legumes com frango desfiadoJunta hidratação, sal e proteína numa preparação só. Coar os legumes nas primeiras horas, se a diarreia estiver intensa.
Ovo cozido ou pochéBem tolerado pela maioria a partir do segundo dia; frito, não.

O que evitar até a diarreia parar

A lista de proibições é curta e tem lógica. Cada item abaixo piora a diarreia ou a náusea por um mecanismo conhecido, e volta ao cardápio assim que as fezes se formarem.

O que costuma piorar o quadro enquanto ele dura.
Evitar Motivo
Leite e derivados, exceto iogurte naturalA inflamação reduz temporariamente a enzima que digere a lactose; o leite volta a ser tolerado dias depois do fim da diarreia.
Frituras, embutidos, molhos cremososGordura acelera o trânsito intestinal e demora a esvaziar o estômago, o que alimenta a náusea.
Doces, mel, suco de fruta, refrigeranteAçúcar concentrado puxa água para dentro do intestino: é diarreia garantida enquanto a mucosa está inflamada.
Folhas cruas, verduras fibrosas, cereais integrais, sementesFibra insolúvel raspa uma mucosa que já está irritada. Ela volta na fase de retomada.
Café, álcool, bebida com gásCafé e álcool estimulam o intestino e desidratam; o gás distende um estômago que já está sensível.
Adoçantes com sorbitol, xilitol ou maltitolPresentes em bala, chiclete e produtos diet, têm efeito laxante por conta própria.

Terceiro dia em diante: a volta ao normal

Quando as fezes começam a ganhar forma, a alimentação volta em dois ou três dias, na ordem inversa da restrição: primeiro os legumes cozidos e as frutas variadas, depois o feijão em pequena quantidade, o pão e o arroz integrais, e por último o leite e as frituras ocasionais. Se um alimento reintroduzido causar piora, é só recuar um passo por um dia.

O iogurte natural entra cedo nessa fase, porque as bactérias dele ajudam a recompor a flora que a gastroenterite desorganiza. Probióticos em cápsula têm evidência de encurtar a diarreia em cerca de um dia, principalmente em crianças; em adultos o efeito é menor, e o iogurte cumpre papel parecido a custo menor.

É comum sentir o apetite reduzido e alguma fraqueza por até uma semana. Nessa fase, o mais importante é comer proteína em toda refeição e manter a hidratação um pouco acima do habitual, porque o corpo ainda está repondo o que perdeu. Não é hora de dieta para emagrecer, mesmo que a balança tenha caído: o que saiu foi água.

Sinais de que o caso não se resolve em casa

A maioria das gastroenterites melhora em 72 horas só com hidratação e comida leve. Alguns sinais, porém, indicam desidratação importante ou infecção que precisa de avaliação médica, e nesses casos a alimentação deixa de ser o assunto principal.

Sinais de alerta que pedem pronto atendimento.
Sinal O que indica
Sangue ou muco nas fezesInfecção bacteriana ou outra causa que precisa de exame e, às vezes, antibiótico.
Febre acima de 38,5 graus que não cedeSugere causa bacteriana ou quadro além da virose comum.
Vômito que impede qualquer líquido por mais de seis a oito horasSem conseguir beber, a desidratação é questão de tempo; pode ser preciso soro na veia.
Urina escura e rara, boca muito seca, tontura ao levantarDesidratação já instalada, que o soro oral em casa não está conseguindo corrigir.
Diarreia por mais de cinco a sete diasFoge do curso esperado de uma gastroenterite viral e pede investigação.
Sonolência, confusão ou prostração, sobretudo em idosos e crianças pequenasSinal de gravidade em quem desidrata mais rápido; não esperar para procurar atendimento.

Perguntas frequentes

Pode, a partir do momento em que o vômito espaçou, e desde que cozido, poché ou mexido sem gordura. Ovo frito não, pela gordura. Ele é uma das melhores fontes de proteína dessa fase, porque é macio e não tem fibra.

Costuma fazer, temporariamente. A inflamação reduz a produção da lactase, enzima que digere o açúcar do leite, e por alguns dias o leite passa a causar gás e diarreia mesmo em quem nunca teve problema com ele. Iogurte natural é a exceção, porque as bactérias já digeriram parte da lactose. O leite volta uma semana depois do fim dos sintomas.

Em adultos, de um a três dias para a fase aguda, com apetite reduzido e fezes ainda amolecidas por mais alguns dias. Casos por norovírus são mais curtos e intensos; por rotavírus, em crianças, podem durar uma semana. Mais de sete dias de diarreia foge do esperado e pede avaliação.

Antidiarreicos que reduzem o movimento do intestino não são recomendados sem orientação, sobretudo se houver febre ou sangue, porque a diarreia é parte do mecanismo de eliminar o agente. O que é seguro usar por conta própria é o soro de reidratação. Medicação para vômito e para o intestino é decisão médica.

Trabalhar depende do sintoma e do risco de contágio: a maioria das gastroenterites virais transmite com facilidade, e o ideal é ficar em casa até 48 horas depois do último episódio. Treinar, não: o corpo está desidratado e sem reserva, e exercício nesse estado aumenta o risco de desmaio e atrasa a recuperação.

A mesma lógica, com prioridade ainda maior na hidratação, porque criança desidrata em horas. Soro de reidratação oral em colheradas frequentes, manter o leite materno ou a fórmula habitual, e oferecer comida leve assim que ela aceitar. Sinais de alerta em criança pedem avaliação mais cedo que em adulto: choro sem lágrima, fralda seca por mais de seis horas, olhos fundos, moleza.

Fontes