Ácido úrico alto e gota são duas fases do mesmo problema. A hiperuricemia é o exame alterado, muitas vezes sem sintoma nenhum. A gota é a crise inflamatória que aparece quando cristais de urato se depositam na articulação, com dor intensa e súbita, em geral no dedão do pé.
A orientação alimentar clássica, aquela lista enorme que proíbe feijão, tomate e espinafre, envelheceu mal. Estudos das últimas duas décadas mostraram que purinas de origem vegetal não aumentam o risco de crise, enquanto três coisas que raramente entram na conversa aumentam muito: álcool, principalmente cerveja, bebidas açucaradas com frutose e excesso de peso.
Vale ser direto sobre uma coisa: alimentação reduz o ácido úrico de forma modesta, na casa de 10 a 15 por cento em média, e o que funciona para baixar o ácido úrico tem prazo próprio. Para quem tem crises repetidas ou nível muito elevado, isso costuma não bastar, e o tratamento medicamentoso é o que resolve. A alimentação continua importando, mas como apoio, não como substituto.
O que realmente eleva o ácido úrico
| Item | Por que atrapalha |
|---|---|
| Cerveja e bebida destilada | A cerveja combina álcool com purinas da levedura e é a bebida mais associada a crise de gota. O álcool também dificulta a eliminação do ácido úrico pelos rins. |
| Refrigerante e suco industrializado | A frutose é o único açúcar que aumenta a produção de ácido úrico durante o metabolismo. Refrigerante comum tem associação forte com crises. |
| Vísceras | Fígado, coração, moela e rim concentram as purinas de maior impacto. É o grupo alimentar que mais eleva o ácido úrico por porção. |
| Frutos do mar e peixes pequenos oleosos | Sardinha, anchova, arenque, mexilhão e camarão têm purina alta. Não precisam sumir, mas pedem frequência baixa. |
| Excesso de peso | Não é alimento, mas pesa mais que qualquer item da lista. Perder peso reduz o ácido úrico de forma consistente, desde que a perda seja gradual. |
Alimento por alimento
As dúvidas abaixo somam a maior parte das buscas sobre o tema, e boa parte delas tem resposta tranquilizadora.
Quem tem ácido úrico alto pode comer ovo?
Pode, e o ovo é uma das melhores escolhas nesse quadro. Ele tem teor muito baixo de purinas e fornece proteína de boa qualidade, o que ajuda a substituir carne vermelha e frutos do mar sem deixar a alimentação pobre em proteína.
Na prática, quem precisa reduzir carne e frutos do mar costuma ficar com dificuldade de atingir a proteína do dia. Ovo, laticínio magro e leguminosas resolvem isso. Não há razão para limitar o ovo por causa do ácido úrico.
Quem tem gota pode comer feijão?
Pode. O feijão tem purinas, mas de origem vegetal, e a evidência acumulada mostra que purinas vegetais não aumentam o risco de crise de gota. Feijão, lentilha, grão de bico e ervilha saíram da lista de restrição nas diretrizes atuais.
Essa é provavelmente a maior mudança em relação à orientação que circulava há vinte anos. Mais que liberadas, as leguminosas são úteis: substituem carne como fonte de proteína, trazem fibra e ajudam no controle do peso, que é o fator de maior peso no quadro.
Tomate faz mal para quem tem ácido úrico?
Não faz, para a maioria das pessoas. O tomate tem teor baixo de purinas e não aparece como fator de risco nos estudos populacionais. Uma parcela pequena de pacientes relata piora com tomate, mas isso é resposta individual, não regra.
Se você já reparou associação entre comer tomate e ter crise, vale registrar em um diário alimentar por algumas semanas antes de cortar. Retirar tomate por precaução, sem evidência do seu próprio caso, empobrece a alimentação sem ganho.
Quem tem ácido úrico pode comer frango?
Pode, com moderação. O frango tem purina em quantidade intermediária, menor que a da carne vermelha e muito menor que a das vísceras. Peito sem pele é a melhor escolha, e uma porção por dia costuma caber sem problema.
O que muda o resultado é a frequência e o tamanho da porção, não a presença do frango no cardápio. Alternar frango com ovo, laticínio magro e leguminosas ao longo da semana distribui melhor a carga de purinas.
Qual peixe quem tem ácido úrico pode comer?
Peixes brancos e magros, como tilápia, pescada, merluza e linguado, têm purina moderada e cabem na rotina. Os que pedem cuidado são os pequenos e oleosos: sardinha, anchova e arenque estão entre os alimentos de maior teor de purina.
Salmão e atum ficam no meio termo e podem entrar uma ou duas vezes por semana. A recomendação de peixe pelo ômega 3 continua válida no geral, mas em quem tem crises frequentes ela precisa ser equilibrada com a carga de purinas, e aí a escolha da espécie resolve.
Quem tem gota pode comer carne de porco?
Pode, em quantidade controlada. A carne suína tem purina em nível parecido com o da carne bovina, ou seja, intermediário a alto. Cortes magros, como lombo e filé, são preferíveis a costela, bacon e linguiça.
Os embutidos suínos merecem atenção separada. Linguiça, salsicha, presunto e bacon somam purina, sódio e gordura saturada, e o sódio em excesso atrapalha o controle da pressão, que costuma andar junto com a hiperuricemia.
Quem tem ácido úrico pode comer tapioca?
Pode, sem restrição por causa do ácido úrico. A tapioca é amido praticamente puro, sem purinas relevantes. Ela não eleva o ácido úrico nem aumenta a chance de crise.
A ressalva é outra: por ser carboidrato de absorção rápida e quase sem fibra, ela não ajuda no controle do peso, que é o fator que mais influencia o ácido úrico. Recheada com ovo ou queijo branco, e acompanhada de fruta, fica bem melhor do que sozinha.
Quem tem gota pode comer pão?
Pode. Pão não tem purina em quantidade relevante e não é fator de risco para crise de gota. Pão integral leva vantagem sobre o branco pela fibra e pelo efeito melhor sobre o peso e a resistência à insulina.
O cuidado está no acompanhamento, não no pão. Pão com embutido, manteiga em excesso ou acompanhado de cerveja muda completamente o quadro, e aí o problema não é o pão.
O que fazer durante uma crise
Durante a crise aguda, alimentação não é a ferramenta principal. O que resolve dor e inflamação é o tratamento medicamentoso prescrito, e quanto antes começar, mais curta tende a ser a crise.
O que a alimentação faz nesse momento é não piorar: suspender álcool por completo, aumentar a ingestão de água e evitar vísceras, frutos do mar e refrigerante nos dias seguintes. Jejum prolongado e dietas muito restritivas também podem precipitar crise, porque aumentam a produção de corpos cetônicos, que competem com o ácido úrico na eliminação renal.
Um ponto que costuma passar batido: quem já usa medicamento para baixar ácido úrico não deve suspendê-lo durante a crise por conta própria. A decisão é de quem prescreveu.